quinta-feira, 11 de junho de 2026

HISTÓRIA DE ZAMBA / Conto * Antonio Cabral Filho/RJ

HISTÓRIA DE ZAMBA

Zamba era um preto bem apanhado. Tipo predileto de certas mulheres. Um verdadeiro deus grego, ainda que preto.

Mas Zamba tinha um problema: embora fosse bem falante, bem informado,
senhor da cultura geral, não era chegado a trabalho. Nem tinha
profissão.

Do alto de seus quarenta anos, ostentava otima saúde, casa própria e carro novo sempre. Contam que nunca estava duro. Gostava de
ternos de linho branco. Usava sempre sapatos sociais. Era fã da
gravata vermelha; ninguém sabe por que.

Alguns sussurram que era filho de santo; cavalo de "Seu Zé", até
que alguém um dia na roda de sinuca do Bar do Seu Pernambuco, gritou: ladrão
não tem santo!

Bom, o cronista não se mete nisso. Nem estimula ódio religioso.

Mas circula uma história de que Zamba, depois Irmão Zamba, era
estuprador, assaltante, inclusive filiado ao maior grupo de
narcotráfico ja conhecido nas américas, e fã da marijuana. Contam que
vivia pra desfrutar da beleza das mulheres que escolhesse. Afirmam que
no caso das casadas, estudava o cotidiano dos seus maridos e assumia o
posto sempre na boa.

Dizem que não dava trela pro azar, que ninguém nunca o acertou em
troca de tiro e que a coronha de seu Winchester não cabia mais cruzes,
que segundo dizem, era a forma como marcava o número de suas vítimas.

Ninguém sabe explicar, mas de repente, Zamba, depois Irmão Zamba,
virou crente. Bom, era a forma de dizer que uma pessoa se tornou
evangélica. Dizem que Zamba comprou uma bíblia, aliás novinha, na loja
da Igreja. Ah! Da Igreja Batista do bairro. E todos passaram a ver
aquela figura quase mitológica desfilar entre o carro e a entrada da
igreja com a bíblia na mão. Ninguém acreditava, ninguém entendia
aquilo. Um bandidão, assassino, estuprador, pedido pra morrer,
assaltante, entre outras infernalidades, entrar numa igreja.

Mas lá ia Zamba, agora, Irmão Zamba. Findo o culto, Irmão Zamba saía
marchando firme em direção a seu carro, hora um jaguar, hora um
mustangue, e às vezes, um citroien. Irmão Zamba começou a ficar
querido. Pastores pegavam carona com ele, levando esposa e filhos
juntos até as suas residências. Fiéis aos montes disputavam a carona
em seus carros, chegando ao ponto de Irmão Zamba dar duas, as vezes
três viagens para atender ao rol da fama.

Subitamente, isso findou. O corpo de Irmão Zamba foi encontrado ao
lado de um CIEP com um cartaz embaixo da bíblia que dizia: 

IRMÃO ZAMBA
NÃO ESTUPRA MAIS NINGUÉM! 

Não demorou, apareceu o rabecão da defesa civil, e uma mãe de santo arreava oferendas pra "Seu Zé", um rabequeiro cantava João Bosco: "Tá lá o corpo estendido no chão" e algumas pessoas vendiam souvenires tais como figa de guiné, fita de São Jorge, de São Sebastião, entre outros. Mas bastou a viatura se retirar, tudo se acabou ali mesmo.
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